Dama de Honra

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Renata e eu éramos amigos desde a infância. Vizinhos desde que nos conhecemos por gente, compartilhamos ao longo de nossas vidas praticamente todos os momentos, bons e ruins, fáceis ou difíceis, complicados ou simples.

Apesar de ela ser uma menina linda e eu não ser um rapaz feio, nunca tivemos atração um pelo outro, cultivando uma relação muito mais de irmãos do que qualquer outra coisa. Renata era dois anos mais nova do que eu, talvez por isso visse em mim algo como um irmão levemente mais velho, um confidente, um companheiro para toda a vida.

Ao longo de nossas adolescências, colecionamos amores e dissabores, chorando um no ombro do outro na tristeza e rindo junto ao outro nos momentos felizes.

Aos 19 anos, Renata noivou com um colega de faculdade. Foi tudo muito rápido, um namoro que não dera nem um ano, mas que, segundo ela, era 'pra vida toda' e, assim sendo, não haveria mais porque adiar o casamento. Apesar de achar meio apressado entendi seu sentimento pois nunca antes havia visto aquela menina linda tão radiante e feliz.

Certo dia, ela me chamou para ir à sua casa para lhe ajudar com alguns detalhes do casamento. Renata me mostrou como seria o bolo, como seria o buque, me mostrou um esboço do vestido, mas notei que ela estava levemente titubeante, como se tivesse algo a pedir mas que estaria entalado na garganta:

- Nossa, Rê, você tá meio estranha... parece meio aérea...

- Lucas, é que esse dia do casamento será um dia muito importante, talvez o mais importante de toda a minha vida, sabe...

- Claro que eu sei. Mas não há porque se preocupar: teus pais estão contratando excelentes cerimonialistas e tenho certeza de que será uma festa inesquecível!

- Sim, sim... quanto a isso não tenho nenhuma dúvida...

- Então o que te aflige, mulher?

- É que... a gente tem essa relação de cumplicidade de tantos anos... e... eu gostaria que você estivesse lá ao meu lado na hora da cerimônia...

- Mas é óbvio que eu estarei. Ó as ideias!

- Sim, sim, Lucas, mas aí está: em razão de ter acertado com o Pedro apenas 2 casais de padrinhos, a coisa meio que ficou complicada pra mim...

- Ficou complicada como? Vai dizer que você tem outras duas pessoas para convidar ao invés de mim!

- Não! Claro que não! Se eu pudesse escolher apenas uma pessoa nesse mundo para estar lá comigo nesse dia seria você, sem dúvida alguma!

- Então não vejo qual o problema!

- Então... é que o Pedro tem dois amigos de infância que ele não tem como não convidar, sabe? Ele disse que não pode abrir mão de nenhum deles pois estaria sendo deselegante em escolher apenas um amigo.

- Entendo...

- Já eu tenho apenas minha prima Luciana que gostaria de convidar. Ela e... você.

Fiquei meio confuso com aquilo, pois realmente não estava entendendo onde ela queria chegar. Então ela continuou:

- E aí está... temos três rapazes e uma menina... e... temos que fechar dois casais...

Segui meio perdido com o que ela falava. Meio sem saber muito o que dizer, sugeri:

- Tranquilo: três 'damos de honra' e uma dama. Moderno!

- hahahahaha... até poderia ser, mas ia ficar meio estranho, Lucas... vai dizer.

- É, não seria o mais tradicional, mas ao menos todas as pessoas que vocês acham importantes estariam lá...

- Então... mas e se... assim... fizéssemos como no tradicional, com... dois casais?

- Eu acho que seria ótimo, mas eu cederia meu lugar pra quem?

- Pra ninguém! Não abro mão de você lá comigo!

Olhei para Renata e vi que ela preparou a fala, estufou o peito, mas a fala trancou. Pensou, olhou para o chão e como se quisesse que aquilo saisse tudo de uma vez, falou quase sem respirar:

- Eu quero que você seja minha dama de honra, Lucas!

Eu levantei de súbito com o susto. Aquelas palavras não estavam fazendo muito sentido:

- Mas como assim, Renata?! Você enlouqueceu?

- Não! Não enlouqueci! Ainda! Mas estou enlouquecendo tentando quebrar esse quebra-cabeça. Parece loucura, parece insanidade, mas me pareceu a única solução possível! - e então desatou a chorar.

Acho que ela esperou que eu de pronto fosse consolá-la, porém minha estupefação não permitia que eu conseguisse raciocinar direito. Eu? Dama de honra? Mas que diabos de ideia é essa?

Então passados alguns segundos, fui em direção de minha amiga, sequei suas lágrimas, olhei fundo em seus olhos e tentei começar entender:

- Renata de Deus, me ajuda. Deixa eu ver se eu entendi: você quer que eu, Lucas, me vista como uma dama de honra e seja par de um dos amigos de Pedro. É isso mesmo que eu entendi?

- Sim! Sim! Me desculpe, Lucas... era isso sim... - e voltou a chorar.

- Mas... Renata... pensa bem... você quer um casamento tradicional, mas quer um homem vestido de mulher ao seu lado na sua cerimônia! - tentei tornar aquela situação mais leve, sendo irônico.

Renata esboçou um sorriso, mas falou em tom levemente sério:

- Jamais iria querer isso. Seria algo bem feito, tipo, jamais alguém acharia que você não é uma mulher.

- Isso seria bem complicado, convenhamos.

Renata então pareceu se animar e falou entusiasmada:

- Que complicado o que, Lucas? Lembra aquela vez que veio minha tia-avó me visitar e nós fizemos de conta que você era minha amiga?

- hahahahahaha... sim... mas aquela sua tia-avó qualquer um enganaria.

- Sim... eu sei... mas nem foi preciso muita produção. Essa vez seria algo profissional. Você tem até esse cabelo comprido ainda pra ajudar.

- Mesmo assim, seria loucura, Renata...

- Por favor... pela nossa amizade, Lu... por favor... meu presente de casamento...

- Rê... me pede qualquer outra coisa... uma geladeira... um fogão... um ar condicionado...

- Já temos tudo isso. Sabes que o Pedro é podre de rico...

- Mas isso é absurdo demais.

- Sim... assim como nossa amizade. Quero você lá comigo, dividindo o momento.

- De vestido?

Renata sorriu largo:

- SIM! De vestido, salto alto, linda... sério... além de tudo será muito engraçado.

- Engraçado pra ti e pros outros.

- Não... só pra mim, porque para os outros você será apenas uma amiga.

- Posso pensar ao menos essa noite?

- Pode. Desde que a resposta seja sim.

- Se eu soubesse a resposta não pediria tempo pra pensar, esperteza.

- hahahahaha... verdade. Pode pensar... mas pensa com carinho. Please.

- Ok... pensarei.

E fui para minha casa, ainda atônito com aquela proposta absurda e pouco usual.

http://www.casadoscontos.com.br/texto/201704609

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